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Palavras do curador

Fernando Guimarães

Sei que não é uma tarefa fácil organizar uma retrospectiva de um artista da magnitude de um imortal da arte brasileira. Sim, porque Ferreira já tem o seu fardão da Academia Brasileira de Artes Plásticas. Entretanto, foi com grande alegria que recebi o convite para fazer a curadoria da mostra. Resumir 50 anos de arte numa gama de peças que represente essa trajetória é uma tarefa um tanto difícil.

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De início ative-me às mais representativas pinturas, digamos ingênuas, que iniciaram essa caminhada. Ali estava a essência do seu dia a dia, sua vivência primeira, os mais sinceros registros de uma sociedade tipicamente nordestina como feiras, danças, jogos, brincadeiras infantis, etc. Segundo o artista, ainda jovem, em conversa com seu pai, este lhe falou em tom de incentivo: pinte, vá ser pintor. No mesmo dia, Ferreira comprou tela, tintas e pincéis, dando início a sua trajetória. Foi dessa forma que surgiu um grande e talentoso artista.

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Para uma segunda escolha, conversei bastante com o artista e percebi que suas cerâmicas eclodiram quando ele vira o mundo lá fora, terras d’além-mar, o que o estimulou a trabalhar com a terceira dimensão e imprimir o seu colorido peculiar nos painéis, nas cerâmicas utilitárias e nas esculturas. São pássaros, tartarugas, porcos, tatus, emas e figuras humanas, além das já conhecidas máscaras. Tudo confeccionado em barro (argila).

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Vale ressaltar que seu trabalho profissional começou na Galeria Officina, em Recife (1972). Nesse período apresentou uma série de miniquadros; partindo daí para quadros de dimensões maiores. Posteriormente foi convidado para mostrar seus trabalhos em Paris, onde passou um ano residindo e pintando, visitando museus e ateliês de artistas, despertando assim o interesse pela pintura na cerâmica. De volta ao Brasil, já na sua terra natal, Pernambuco, começou a modelar e pintar sua própria cerâmica e confeccionar painéis para edifícios e órgãos públicos, trabalhos que desenvolve até hoje.

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Passados alguns anos, disse-me que fora reacesa a chama do figurativismo e ele nos presenteou com a belíssima série onde o próprio artista figura no atelier dos grandes artistas da história da arte. Ali se encontram Ferreira e Matisse, Ferreira e Picasso, Ferreira e Gauguin, além de outros. Esse belíssimo trabalho nos encanta pelo inusitado e pela coragem do artista de se apropriar de determinadas imagens de artistas mundialmente consagrados.

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A série Satye veio numa verdadeira explosão de cores. Nela o artista mostra toda sua capacidade de aproveitamento do espaço em branco, um verdadeiro desafio para qualquer pintor. Nesses trabalhos, as cores vibrantes saltam aos nossos olhos e é facilmente comparável a um show pirotécnico.

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Fechando esse ciclo de 5 décadas, nada mais alentador numa época tão conturbada - que foi a recente pandemia - como sua última série intitulada Amazônia. Nessa mais recente fase, o artista reduziu a paleta e nos apresenta uma dificílima pintura em verde. As tintas se sobrepõem numa massa em verdes dos mais diversos matizes. Aqui a contemplação se faz obrigatória, visto que são pinturas em grandes formatos e persistentemente ressaltadas pela infinita pujança da floresta amazônica.

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Parabéns, Ferreira!                   

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